"Maconha não é mais uma droga leve"
Formulador da política de entorpecentes portuguesa, considerada uma das melhores do mundo, diz que a maconha está quimicamente mais potente e afirma que o Brasil não está preparado para a descriminalização
ISTOÉ - Qual a porta mais comum para o jovem entrar nas drogas?
ISTOÉ - Maconha é uma droga leve?
João Goulão - Maconha não é mais uma droga leve. A maconha hoje tem uma concentração do seu princípio psicoativo, o THC, muito maior do que dez anos atrás. Aliás, nenhuma droga pode ser considerada leve. O que realmente interessa é a importância que a droga ganha na vida da pessoa. Se for dependente da substância, pouco importa que ela seja leve ou pesada. Por isso descriminalizamos o consumidor de todas as drogas.
ISTOÉ - Como a lei da descriminalização do consumidor foi implantada em Portugal?
João Goulão - Iam para o tribunal. Na maior parte dos casos, não eram condenados à prisão. Os juízes optavam por penas alternativas ou tratamento compulsório em unidades terapêuticas. Não existe nada pior do que uma lei que não é cumprida. A lei determinava a reclusão, mas os dependentes não eram condenados à cadeia.
ISTOÉ - O sr. acredita que Brasil esteja preparado para descriminalizar o consumo de drogas?
João Goulão - Eu diria que no Brasil há uma carência de respostas públicas. O fenômeno da droga e da dependência tem de ser abordado por algum órgão, a Justiça ou a Saúde. Não podemos retirá-la da Justiça e não ter as respostas da Saúde. As próprias autoridades policiais, ao terem uma abordagem mais amigável em relação aos usuários, necessitam de estruturas de saúde que possam se ocupar deles. Senão, fica o vazio: nem há perseguição policial nem oferta de tratamento.
ISTOÉ - A tolerância com as drogas no mundo do entretenimento não é uma influência negativa para os jovens?
João Goulão - O sistema de cuidados com a saúde dos toxicodependentes é dos mais perfeitos do mundo. Pena que somente seja referida como exemplar a questão da descriminalização, que está longe de ser a nossa melhor estratégia. É apenas um componente importante, mas só demos esse passo depois de termos fixado a responsabilidade de lidar com o problema no Ministério da Saúde mais do que no Ministério da Justiça. O dependente é doente, precisa de ajuda médica e não de prisão. O interessante da descriminalização foi tornar nosso sistema coerente. Temos uma população de dez milhões de habitantes e uma rede de saúde dedicada apenas aos usuários de drogas que envolve cerca de dois mil profissionais, 70 unidades de ambulatório em todo o país e mais de 100 unidades terapêuticas com cerca de dois mil lugares disponíveis. Tudo gratuito.
ISTOÉ - Não fica o registro da passagem dele na polícia?
ISTOÉ - E se for pego novamente?
João Goulão - Aí pode ser aplicada uma penalidade. No caso do dependente, nunca é multa em dinheiro. Pode ser proibição de frequentar determinados locais, privação de benefícios sociais, pode ser proibido de viajar para o exterior, de dirigir. É uma lista longa, que inclui ainda trabalho comunitário. Prisão nunca.
ISTOÉ - Não há internação?
ISTOÉ - E se eles voltarem a se drogar?
João Goulão - Se reincidir no período de suspensão do processo, terá a obrigação de se apresentar periodicamente ao sistema, onde será avaliado. Se continuar, pode ser multado em até 500 euros e receber outras penas.
ISTOÉ - Vocês tratam somente os usuários flagrados pela polícia?
João Goulão - Não. Essa é uma das vias de acesso ao nosso sistema de tratamento.Tratamos por ano sete mil pessoas encaminhadas pela Comissão de Dissuasão. E temos por volta de 50 mil pessoas em tratamento nos nossos centros. Muitos vão voluntariamente, enviados por médicos ou pela família. É um sistema forte. Nosso orçamento é de 75 milhões de euros por ano. Atualmente, estamos com algumas dificuldades em função da crise econômica, mas temos conseguido sucesso. Tanto que há três anos estendemos nosso programa aos dependentes de álcool.
ISTOÉ - E a reação dos policiais?
João Goulão - A polícia não via sentido em prender viciados. Ela não tem mais que instruir processo nem fazer investigação sobre dependentes. A polícia passou a ter mais tempo para se dedicar às investigações sobre o grande tráfico. A eficácia aumentou enormemente na apreensão de carregamentos de drogas.
João Goulão - Os traficantes passaram a fazer mais viagens. Em vez de andar com grandes quantidades, carregam o mínimo. Caso sejam interceptados, alegam que é para consumo próprio. Mas, se a polícia tiver evidência de que era para venda, mesmo com as quantidades toleradas, ele vai para o sistema prisional. Assim como pode ocorrer o contrário. O sistema é flexível.
ISTOÉ - a Holanda existem cafés e bares que vendem maconha. Em Portugal existe isso?
ISTOÉ - Qual a sua avaliação sobre o modo como o Brasil trata os seus dependentes?
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